Educação Sem Idade

A busca pelo ensino superior após os 40 anos e o combate ao etarismo na sociedade brasileira

Por muitos anos, fomos culturalmente induzidos a seguir uma trajetória linear de vida: concluir o ensino médio e ingressar imediatamente no ensino superior. Essa lógica social parecia incontestável, como se houvesse um único caminho válido para o sucesso pessoal e profissional.

No entanto, esse paradigma está em transformação. Uma discussão cada vez mais presente no cotidiano é sobre o etarismo, termo que designa o preconceito baseado na idade. Trata-se de uma crença limitante que impõe barreiras sociais e psicológicas ao que uma pessoa pode ou não fazer a partir de determinada fase da vida. Embora o tema possa ser amplamente aprofundado sob a ótica de psicanalistas e estudiosos da mente humana, o que se observa na prática é simples e poderoso: pessoas maduras querem continuar aprendendo, se informando, acompanhando os avanços da tecnologia e se sentindo inseridas no mundo globalizado, com o propósito de garantir qualidade de vida para suas famílias e conquistar realização pessoal e profissional.

Segundo a plataforma Educa Mais Brasil, o número de pessoas acima dos 40 anos que buscam o ensino superior no Brasil vem crescendo de forma expressiva. Essa tendência também é impulsionada por uma mudança na forma como lidamos com a comparação social. A psicóloga Andreia Cocco, CRP 06/146707, afirma em artigo publicado na Folha de S. Paulo que “a comparação com os outros pode ter tanto efeitos positivos quanto negativos, dependendo de como ela é abordada”. Essa reflexão ajuda a entender por que tantos adultos hoje se sentem mais livres para recomeçar seus projetos acadêmicos sem se prender às pressões externas.

A American Psychological Association, referência global em estudos sobre comportamento humano, afirma que o preconceito de idade é uma questão grave. De acordo com a entidade, deve ser enfrentado com a mesma seriedade que o racismo, o machismo e a homofobia. A organização destaca a importância de ampliar a consciência pública sobre os danos que o etarismo causa, especialmente em um cenário onde a população idosa está em constante crescimento.

Na prática, o que vemos são adultos e idosos com mais clareza sobre suas escolhas, retomando os estudos com mais propósito. Muitos ingressam na faculdade com entusiasmo, participando ativamente de projetos de extensão, congressos, ligas acadêmicas e atividades de pesquisa. Em grandes instituições de ensino superior, inclusive, há programas de incentivo à pesquisa científica que oferecem bolsas para alunos mais velhos que desejam se dedicar integralmente à vida acadêmica.

Diante desse cenário, é possível afirmar que o segundo semestre do ano costuma ser um período decisivo para esse público. A procura por cursos técnicos, de aperfeiçoamento e graduações cresce entre pessoas mais maduras, seja por meio de atendimentos presenciais ou canais digitais de informação. É um movimento que precisa ser valorizado e estimulado em todos os espaços: nas empresas, nas escolas, nas rodas de conversa entre amigos e até nos ambientes mais informais.

Falar sobre isso é contribuir para uma sociedade mais justa, onde a educação não tem idade e recomeçar é, cada vez mais, um ato de coragem e sabedoria.